Os índios dos territórios norte-americanos são de diversas etnias. Nas regiões dos Grandes Lagos no nordeste daqueles territórios, (actual zona fronteiriça dos EUA e Canadá), dominava desde o século XII a etnia dos Iroqueses. Uma das suas famílias mais conhecidas é a dos Mohawak (não confundir com Moicanos), que habitava a zona do vale do rio do mesmo nome, onde hoje se situa uma parte do estado de Nova Iorque.
Retirado do belíssimo livro de Lewis Spence "Guia Ilustrado. Mitologia Norte-Americana", não resisto a transcrever esta versão dos Iroqueses sobre o "nascimento da medicina". É a sua descrição de como as plantas medicinais passaram a ocupar o lugar de destaque que têm naquela cultura. E como o tema também é de interesse universal, aqui vai:
Antigamente, os animais eram dotados de fala e viviam em alegre harmonia com os homens, mas a humanidade começou a reproduzir-se tão depressa que os animais foram forçados a morar nas florestas em lugares desertos, e a velha amizade entre animais e homens foi esquecida. A brecha alargou devido ao invento das armas mortais, com as quais o homem começou a matança indiscriminada dos animais para obter a sua carne e as suas peles.
Os animais, a princípio surpresos, cedo se enfureceram e começaram a pensar em modos de retaliação. A tribo dos ursos reuniu o seu conselho, presidido pelo Velho Urso Branco, o seu chefe. Após vários intervenientes terem denunciado as tendências sanguinárias da humanidade, foi decidido unanimemente que seria declarada guerra; mas a falta de armas era olhada como uma grande desvantagem. No entanto, foi sugerido que as armas dos homens deveriam ser viradas contra eles mesmos e, visto o arco e a flecha serem considerados os principais agentes humanos de destruição, ficou resolvido que seria criada uma imitação. Foi trazido um pedaço de madeira adequado e um dos ursos sacrificou-se para assim poderem obter cordas feitas de tripa para o arco. Quando o instrumento foi acabado, descobriu-se que as garras dos ursos interferiam no disparar da arma. Um dos ursos cortou as suas garras, mas o Velho Urso Branco disse sensatamente que assim não conseguiam subir às árvores, nem tão-pouco caçar; por isso, se as cortassem, morreriam todos à fome.
Também os veados se reuniram com o seu chefe, Pequeno Veado. Foi decidido que todos os homens que matassem um membro da tribo dos veados sem depois pedirem perdão da maneira correcta, passariam a sofrer de reumatismo. Deram a conhecer esta nova regra a um acampamento de índios que se encontrava por ali perto e explicaram-lhes como haviam de fazer para compensar o facto de terem matado um dos membros da tribo dos veados. Decretaram que, quando um veado fosse morto por um caçador, o Pequeno Veado correria para o local da morte e, dobrando-se sobre as nódoas de sangue, perguntaria ao espírito do veado que morrera se tinha ouvido a oração do caçador, em forma de pedido de desculpa. Se a resposta fosse "sim", tudo ficava bem e o Pequeno Veados ir-se-ia embora, mas se a resposta fosse negativa, ele seguiria o caçador e atingi-lo-ia de reumatismo, de maneira a que ele se tornasse um inválido inútil.
Depois foi a vez de os répteis e os peixes se reunirem, ficando decidido que ensombrariam todos aqueles que os atormentassem com sonhos em que cobras e serpentes se enrolavam nos seus corpos ou em que eles comiam peixes em decomposição.
Por fim, os pássaros, os insectos e os animais mais pequenos, reuniram-se também para o mesmo efeito. Cada um de sua vez deu a opinião e o consenso a que chegaram foi contra a espécie humana. Eles imaginaram e puseram nomes a várias doenças.
Quando as plantas, que eram amigas dos homens, ouviram o que os animais estavam a planear, decidiram fazer com que as suas tentativas de destruir os homens saíssem furadas. Cada árvore, arbusto, relva ou mesmo erva decidiu criar um remédio para alguma das doenças referidas. Quando o médico tinha dúvidas no que dizia respeito ao tratamento a administrar para o alívio de um paciente, o espírito da planta sugeria um remédio adequado. Foi assim que nasceu a medicina.

