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| "...uns após outros, enchiam os caminhos dormentes que levam às eiras" |
Manhã cedo, mal o sol, bravio que nem enxame de abelhas alvoriçado, pulava atrás dos montes, goela forte bradava do alto do pináculo da meda: à eira-aaa-aa-a! Aquilo ouvia-se em grande raio pelo povo e suas abas, como os sinos de Toledo. E logo de cada canto rompiam os malhadores, lépidos e pontuais como quem acode a um toque de guerra. Calça branca de estopa, para gargantilha um lenço de mulher, esfraldado sobre os ombros por mor de paraganas, sol e moscas, irmãos danados a ferrar, a grenha dos pomas a espirrar dos bofes da camisa, uns após outros, enchiam os caminhos dormentes que levam às eiras. Todos descalços – que nem carne de Ferrabrás aturava pés calçados de sol a sol, na trabuzana – apenas se ouviam suas vozes marulhar ásperas na corrente remansosa da madrugada.
A Serra da Estrela, a dez léguas pelo redondo, acercava-se
no ar translúcido, punha-se de atalaia mesmo lá em riba, a menos do galope dum
cavalo, por detrás do morro de Segões. De lá vinha a neve de cantaril e o vento
que corta, mas, se tamanha e mais sólida que muralha de bronze a ergueu ali
Nosso Senhor, para algum benefício foi… talvez para não deixar esbarrondar para
campos de Espanha, assim como um monte de trigo, as terrinhas altas da Beira… ou
para que estrela, correndo cega pelo céu, mal’hora as não escaqueirasse como a
púcaras de barro. Sabe-se lá!... Descobrindo-se com o nascer do sol, da roxidão
dos lírios roxos macerados, ao perto que se afigurava, chegava a gente a crer
que se divisaria, batendo suas devesas, um caçador com os cães.
Galgava para
ela a praia-mar doirada dos restolhais subindo os montes, insulando as moitas
verdes, dum verde que dá a gana das sestas, e os oiteiros de urze e sargaço,
surrados dos rebanhos, de alcandor aos baixos ribeirinhos onde ainda apendoava
o milharal. De todo esse terrunho que se avistava, iam agora enchendo-se as
tulhas. Já pelos longes, na cernelha de Forles e na gamela de S. Martinho, se
empoleiravam muito brancos os palheiros novos. Vistos dentre as matas, ao
passar, pareciam, talhados em capindó, por trás dos lumes da canícula, grandes
anáguas de linho, enfunadas no volteio da dança.
Bafoeiradas da aragem traziam pelos ares a moinha dos
centeios padejados e o rescendor da macela e da labaça que ressequiram nos
campos gadanhados. Cortavam o céu altos bandos de pombos bravos e, descuidosas,
moendo o grão caído da espiga gorda, cantavam na terra das searas a perdiz e a
corcolher. Já as cerejas tinham bicho e a cigarra emudecia longas horas,
quebrantada de tanto zangarrear. As manhãs, até toarem os manguais, eram dum
silêncio que se sentia do mais pequeno tropel de tamancos estreloiçando nas
ruas.






