quinta-feira, 16 de outubro de 2014

PORTUGAL - OS MALHADORES DAS TERRAS DO DEMO, POR AQUILINO RIBEIRO, “TERRAS DO DEMO” (1918), Círculo de Leitores, 1983, Lisboa



"...uns após outros, enchiam os caminhos dormentes que levam às eiras"

Manhã cedo, mal o sol, bravio que nem enxame de abelhas alvoriçado, pulava atrás dos montes, goela forte bradava do alto do pináculo da meda: à eira-aaa-aa-a! Aquilo ouvia-se em grande raio pelo povo e suas abas, como os sinos de Toledo. E logo de cada canto rompiam os malhadores, lépidos e pontuais como quem acode a um toque de guerra. Calça branca de estopa, para gargantilha um lenço de mulher, esfraldado sobre os ombros por mor de paraganas, sol e moscas, irmãos danados a ferrar, a grenha dos pomas a espirrar dos bofes da camisa, uns após outros, enchiam os caminhos dormentes que levam às eiras. Todos descalços – que nem carne de Ferrabrás aturava pés calçados de sol a sol, na trabuzana – apenas se ouviam suas vozes marulhar ásperas na corrente remansosa da madrugada.

A Serra da Estrela, a dez léguas pelo redondo, acercava-se no ar translúcido, punha-se de atalaia mesmo lá em riba, a menos do galope dum cavalo, por detrás do morro de Segões. De lá vinha a neve de cantaril e o vento que corta, mas, se tamanha e mais sólida que muralha de bronze a ergueu ali Nosso Senhor, para algum benefício foi… talvez para não deixar esbarrondar para campos de Espanha, assim como um monte de trigo, as terrinhas altas da Beira… ou para que estrela, correndo cega pelo céu, mal’hora as não escaqueirasse como a púcaras de barro. Sabe-se lá!... Descobrindo-se com o nascer do sol, da roxidão dos lírios roxos macerados, ao perto que se afigurava, chegava a gente a crer que se divisaria, batendo suas devesas, um caçador com os cães. 

Galgava para ela a praia-mar doirada dos restolhais subindo os montes, insulando as moitas verdes, dum verde que dá a gana das sestas, e os oiteiros de urze e sargaço, surrados dos rebanhos, de alcandor aos baixos ribeirinhos onde ainda apendoava o milharal. De todo esse terrunho que se avistava, iam agora enchendo-se as tulhas. Já pelos longes, na cernelha de Forles e na gamela de S. Martinho, se empoleiravam muito brancos os palheiros novos. Vistos dentre as matas, ao passar, pareciam, talhados em capindó, por trás dos lumes da canícula, grandes anáguas de linho, enfunadas no volteio da dança.

Bafoeiradas da aragem traziam pelos ares a moinha dos centeios padejados e o rescendor da macela e da labaça que ressequiram nos campos gadanhados. Cortavam o céu altos bandos de pombos bravos e, descuidosas, moendo o grão caído da espiga gorda, cantavam na terra das searas a perdiz e a corcolher. Já as cerejas tinham bicho e a cigarra emudecia longas horas, quebrantada de tanto zangarrear. As manhãs, até toarem os manguais, eram dum silêncio que se sentia do mais pequeno tropel de tamancos estreloiçando nas ruas.

Pag. 39-41

malhadores - imagem retirada, com a devida vénia daqui

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

PORTUGAL - JARDINS DE ESTOI E QUINTAL DE CASA NO SUL, POR MANUEL TEIXEIRA-GOMES, “GENTE SINGULAR (CONTO)”, republicaçãop com base na 1ª edição de 1909, Gente Singular Editora, Olhão, 2007



"Cinco ciprestes gigantescos, seculares, augustos, postos em fila..."

Partimos de manhã cedo – já convenientemente alastrados com suculentas rodas de paio alentejano e uns copinhos da famosa medronheira serrana – e parámos em Estoi, vila de bons prédios, arejada e álacre. Na companhia do pároco, visitámos, antes do almoço, as ruínas do palácio Carvalhal. Arquitectura D. João V. Situação admirável entre jardins e pomares meio abandonados, estendendo-se por largos tabuleiros ou terraços sobrepostos com nobres escadarias, elegantes balaústres e graciosos miradoiros. Vastíssimo horizonte, abrangendo a costa por sobre uma infinita várzea toda coalhada em floridas amendoeiras onde predomina o vermelho e que parecem ampliar os jardins do palácio levando-os até ao mar longínquo e faiscante. Cinco ciprestes gigantescos, seculares, augustos, postos em fila, formam cortina e apresentam a secante necessária às mutações da perspectiva. Murmúrios de águas correntes por entre vetustas laranjeiras, moitas de alecrim e goivos, maciços de buxo e canteiros de narcisos.

Pag. 21

A sala de jantar e os quartos de Monsenhor e das manas davam para uma grande varanda, ladrilhada e fechada em alegretes que formavam parapeito, com cisterna cujo gargalo octógono, de cantaria, marcava o centro de uma estrela desenhada por vasos de flores. Sobre varões de ferro, que se levantavam dos alegretes, armavam-se velhas parreiras, agora tupidas em fresca folhagem e sombreando completamente o vasto recinto a qualquer hora do dia.
A nascente, por cima de telhados baixos, descobria-se a ria, com um trecho da costa hortada, o areal doirado da Ilha e o casario de Olhão. Para o norte ficava o quintal, verdadeira cerca nas dimensões e cultura, à qual se descia da varanda por uma elegante escada de cantaria em forma de concha.
Nesse quintal é que estava a colossal figueira lampa, de cujos apetecíveis frutos eu não lograra provar na noite da minha chegada, mas com os quais a miúdo me repimpara doze meses depois graças à generosa amabilidade de Monsenhor. Havia ali, também, grande abundância de outras árvores de pomar: ameixieiras, damasqueiros e pessegueiros, além das leiras de hortaliça e muitas plantas decorativas como espadanas e sardinheiras; de modo que pelo aprazível do sítio, durante o Verão, era na cerca e na varanda que principalmente estacionavam as manas de Monsenhor e foi na varanda que se colocaram as mesas para a refeição, a qual não era jantar, nem ceia, nem merenda, mas participava de todos esses repastos pela natureza dos pratos que a compunham.

Pag. 24


Breve nota:

Aqui vemos o Algarve, seja na quinta senhorial de Estoi, seja numa casa com quintal urbano nas proximidades de Olhão. Manuel Teixeira-Gomes, 7º Presidente da República, algarvio de Portimão, conhece bem esta realidade, tal como Eça conhecia bem Tormes.

As espécies aqui são mediterrânicas: amendoeiras, ciprestes, laranjeiras, alecrim, goivos, buxo e narcisos em Estoi; em Olhão, uvas, figueiras-lampas, ameixeiras, damasqueiros e pessegueiros no quintal, espadanas e sardinheiras como "decorativas".

Os elementos: jardins, pomares, tabuleiros ou terraços, escadarias com balaustres e miradoiros em Estoi;  varanda, cisterna, vasos de flores, alegretes, leiras de hortaliças, em Olhão. Repare-se ainda na escala do quintal, entendido como menor que cerca.

Estoi, classificado como Imóvel de Interesse Público (ver mais em DGPC) , é um local imperdível a visitar no Algarve. Actual Pousada, é fácil fazê-lo; o seu estado de conservação é notável e alguns acontecimentos que aí ocorrem são de extremo interesse. De referir a próposito o "Cozinhando na Paisagem" que se realizou em Setembro de 2013, e com mais informação disponível aqui, e de onde se retira, com a devida vénia a foto abaixo, como convite à visita!


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

PORTUGAL - UMA QUINTA DO NORTE DESCRITA POR EÇA DE QUEIROZ, “A CIDADE E AS SERRAS”; (edição baseada nos manuscritos e na edição de 1901), Ed. Livros do Brasil, Lisboa, sem data.

"Passámos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhara o meu Príncipe..."


Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro cerrava, e dominando, a Flor da Malva voltava para oriente e para o Sol a sua longa fachada com os dois torreões quadrados, onde as janelas, de varanda, eram emolduradas em azulejo. O grande portão de ferro, ladeado por dois bancos de pedra, ficava ao fundo do outeirinho, onde um imenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as suas fortes raízes um pequeno esperava segurando um burro pela arreata.
- Está por aí o Manuel da Porta?
- Ainda agora subiu pela alameda.
- Bem, empurra lá o portão.
E subimos, por uma curta avenida de velhas árvores, até outro terreiro, com um alpendre, uma casa de moços, toda coberta de heras, e uma casota de cão, donde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o “Tritão”, que eu logo sosseguei, reconhecendo o seu velho amigo Zé Fernandes. E o Manuel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande balde, para segurar os nossos cavalos.
- Como está o tio Adrião?
Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado:
- E então Vossa Excelência, bem? A srª. D. Joaninha ainda agora andava no laranjal com o pequeno da Josefa.
Seguimos por ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo alto, enquanto eu contava ao meu Príncipe que aquele pequenito da Josefa era um afilhadinho da prima Joana, e agora o seu encanto e o seu cuidado.
- Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem aí pela freguesia uma verdadeira filharada. E não é só dar-lhes roupas e presentes, e ajudar as mães. Mas até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a encontro sem uma criancinha ao colo…Anda agora na paixão deste Josézinho.
Mas quando chegámos ao laranjal, à beira da larga rua da quinta que levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e até gritei: - Eh, prima Joaninha!...
- Talvez esteja lá para baixo, para o tanque…
Descemos a rua, ladeada de velhas árvores, que a cobriam com as densas ramadas cruzadas. Uma fresca, límpida água de rega corria e luzia num caneiro de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura de Verão. E o pequeno campo, que se avistava para além, rebrilhava com uma doçura, toda amarelo e branco, dos malmequeres e botões de ouro.

O tanque, redondo, fora esvaziado para se lavar, e agora de novo o repuxo o ia enchendo de uma água muito clara, ainda baixa, onde os peixes vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano. Sobre um dos bancos de pedra que circundavam o tanque, pousava um cesto cheio de dálias cortadas. E um moço, que sobre uma escada podava as camélias, vira a srª. D. Joana seguir para o lado da parreira.

Marchámos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas mulheres, longe, ensaboavam num lavadouro, na sombra das grandes faias. Gritei: - Eh lá? Vocês viram por aqui a srª. D. Joana? – Uma das moças esganiçou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.
- Bem: vamos a casa! Não podemos farejar assim, toda a tarde.
- É uma bela quinta – murmurava o meu Príncipe, encantado.
- Magnífica! E bem tratada…O tio Adrião tem um feitor excelente…Não é lá o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquele cebolinho!

Passámos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhara o meu Príncipe, com os seus talhões debruados a alfazema, e madressilva enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruazinhas frescas toldadas de parra densa. E demos volta à capela, onde crescia aos dois lados da porta uma roseira chá, com uma rosa única, muito aberta, e uma moita de baunilha, onde Jacinto apanhou um raminho para cheirar. Depois entrámos no terraço em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda enrodilhada de jasmineiros amarelos. A porta envidraçada estava aberta: e subimos pela escadaria de pedra, no imenso silêncio em que toda a Flor da Malva repousava, até à antecâmara, de altos tectos apainelados, com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta de uma outra sala, que tinha as janelas da varanda abertas, cada uma com a gaiola de um canário.

Pags. 225-227

Breve nota:

Uma descrição quase fotográfica de uma quinta de recreio no Douro, Tormes, em Santa Cruz do Douro, concelho de Baião, que tinha cabido por partilhas à mulher de Eça de Queiroz, Dª Emília de Castro, e hoje local a visitar - actual Fundação Eça de Queiroz e disponível em  http://www.feq.pt/

Uma vista parcial de Tormes, entre o jardim e o caminho para o miradouro.

Uma das funcionalidades desse site é uma visita virtual a Tormes, com excelentes perspectivas dos interiores e exteriores da Quinta, disponível em http://www.feq.pt/vvfeq/index.html

Continuando com o texto,reparemos nas espécies vegetais que Eça de Queiróz utiliza e que ainda hoje podem constituir uma interessante, ainda que breve, paleta para a intervenção paisagista de quintas durienses (e não só) - árvores: castanheiros e faias; arbustos: alfazema, buxo, camélia; trepadeiras: roseiras-bravas, vinha, madressilva, roseira-chá; herbáceas: malmequeres, botões de ouro, dálias; e referências a uma hortícola, o cebolinho e o toque de exotismo da baunilha.
  
Vejamos os elementos da quinta citados: laranjal, horta ajardinada, caminhos areados, terreiro, alpendre, terraço, tanque com repuxo, caneiro da rega, lavadouro, bancos de pedra, capela. 

Mas mais do que a enumeração de espécies e elementos importa a coerência do conjunto.