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| "Passámos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhara o meu Príncipe..." |
Sobre um outeirinho,
afastada da estrada por arvoredo, que um muro cerrava, e dominando, a Flor da
Malva voltava para oriente e para o Sol a sua longa fachada com os dois
torreões quadrados, onde as janelas, de varanda, eram emolduradas em azulejo. O
grande portão de ferro, ladeado por dois bancos de pedra, ficava ao fundo do
outeirinho, onde um imenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado
sobre as suas fortes raízes um pequeno esperava segurando um burro pela
arreata.
- Está por aí o Manuel da Porta?
- Ainda agora subiu pela alameda.
- Bem, empurra lá o portão.
E subimos, por uma
curta avenida de velhas árvores, até outro terreiro, com um alpendre, uma casa
de moços, toda coberta de heras, e uma casota de cão, donde saltou, com um
rumor de corrente arrastada, um molosso, o “Tritão”, que eu logo sosseguei,
reconhecendo o seu velho amigo Zé Fernandes. E o Manuel da Porta correu da
fonte, onde enchia um grande balde, para segurar os nossos cavalos.
- Como está o tio Adrião?
Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado:
- E então Vossa Excelência, bem? A srª. D. Joaninha ainda
agora andava no laranjal com o pequeno da Josefa.
Seguimos por ruazinhas
bem areadas, orladas de alfazema e buxo alto, enquanto eu contava ao meu
Príncipe que aquele pequenito da Josefa era um afilhadinho da prima Joana, e
agora o seu encanto e o seu cuidado.
- Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem aí pela
freguesia uma verdadeira filharada. E não é só dar-lhes roupas e presentes, e
ajudar as mães. Mas até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a
encontro sem uma criancinha ao colo…Anda agora na paixão deste Josézinho.
Mas quando chegámos
ao laranjal, à beira da larga rua da quinta que levava ao tanque, debalde
procurei, e me embrenhei, e até gritei: - Eh, prima Joaninha!...
- Talvez esteja lá para baixo, para o tanque…
Descemos a rua,
ladeada de velhas árvores, que a cobriam com as densas ramadas cruzadas. Uma
fresca, límpida água de rega corria e luzia num caneiro de pedra. Entre os
troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura de Verão. E o pequeno
campo, que se avistava para além, rebrilhava com uma doçura, toda amarelo e
branco, dos malmequeres e botões de ouro.
O tanque, redondo, fora esvaziado para se lavar, e agora de novo o repuxo o ia enchendo de uma água muito clara, ainda baixa, onde os peixes vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano. Sobre um dos bancos de pedra que circundavam o tanque, pousava um cesto cheio de dálias cortadas. E um moço, que sobre uma escada podava as camélias, vira a srª. D. Joana seguir para o lado da parreira.
Marchámos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas mulheres, longe, ensaboavam num lavadouro, na sombra das grandes faias. Gritei: - Eh lá? Vocês viram por aqui a srª. D. Joana? – Uma das moças esganiçou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.
- Bem: vamos a casa! Não podemos farejar assim, toda a tarde.
- É uma bela quinta – murmurava o meu Príncipe, encantado.
- Magnífica! E bem tratada…O tio Adrião tem um feitor
excelente…Não é lá o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquele
cebolinho!
Passámos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhara o meu Príncipe, com os seus talhões debruados a alfazema, e madressilva enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruazinhas frescas toldadas de parra densa. E demos volta à capela, onde crescia aos dois lados da porta uma roseira chá, com uma rosa única, muito aberta, e uma moita de baunilha, onde Jacinto apanhou um raminho para cheirar. Depois entrámos no terraço em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda enrodilhada de jasmineiros amarelos. A porta envidraçada estava aberta: e subimos pela escadaria de pedra, no imenso silêncio em que toda a Flor da Malva repousava, até à antecâmara, de altos tectos apainelados, com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta de uma outra sala, que tinha as janelas da varanda abertas, cada uma com a gaiola de um canário.
Pags. 225-227
Breve nota:
Uma descrição quase fotográfica de uma quinta de recreio no Douro, Tormes, em Santa Cruz do Douro, concelho de Baião, que tinha cabido por partilhas à mulher de Eça de Queiroz, Dª Emília de Castro, e hoje local a visitar - actual Fundação Eça de Queiroz e disponível em http://www.feq.pt/
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| Uma vista parcial de Tormes, entre o jardim e o caminho para o miradouro. |
Uma das funcionalidades desse site é uma visita virtual a Tormes, com excelentes perspectivas dos interiores e exteriores da Quinta, disponível em http://www.feq.pt/vvfeq/index.html
Continuando com o texto,reparemos nas espécies vegetais que Eça de Queiróz utiliza e que ainda hoje podem constituir uma interessante, ainda que breve, paleta para a intervenção paisagista de quintas durienses (e não só) - árvores: castanheiros e faias; arbustos: alfazema, buxo, camélia; trepadeiras: roseiras-bravas, vinha, madressilva, roseira-chá; herbáceas: malmequeres, botões de ouro, dálias; e referências a uma hortícola, o cebolinho e o toque de exotismo da baunilha.
Vejamos os elementos da quinta citados: laranjal, horta ajardinada, caminhos areados, terreiro, alpendre, terraço, tanque com repuxo, caneiro da rega, lavadouro, bancos de pedra, capela.
Mas mais do que a enumeração de espécies e elementos importa a coerência do conjunto.



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