quarta-feira, 15 de outubro de 2014

PORTUGAL - JARDINS DE ESTOI E QUINTAL DE CASA NO SUL, POR MANUEL TEIXEIRA-GOMES, “GENTE SINGULAR (CONTO)”, republicaçãop com base na 1ª edição de 1909, Gente Singular Editora, Olhão, 2007



"Cinco ciprestes gigantescos, seculares, augustos, postos em fila..."

Partimos de manhã cedo – já convenientemente alastrados com suculentas rodas de paio alentejano e uns copinhos da famosa medronheira serrana – e parámos em Estoi, vila de bons prédios, arejada e álacre. Na companhia do pároco, visitámos, antes do almoço, as ruínas do palácio Carvalhal. Arquitectura D. João V. Situação admirável entre jardins e pomares meio abandonados, estendendo-se por largos tabuleiros ou terraços sobrepostos com nobres escadarias, elegantes balaústres e graciosos miradoiros. Vastíssimo horizonte, abrangendo a costa por sobre uma infinita várzea toda coalhada em floridas amendoeiras onde predomina o vermelho e que parecem ampliar os jardins do palácio levando-os até ao mar longínquo e faiscante. Cinco ciprestes gigantescos, seculares, augustos, postos em fila, formam cortina e apresentam a secante necessária às mutações da perspectiva. Murmúrios de águas correntes por entre vetustas laranjeiras, moitas de alecrim e goivos, maciços de buxo e canteiros de narcisos.

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A sala de jantar e os quartos de Monsenhor e das manas davam para uma grande varanda, ladrilhada e fechada em alegretes que formavam parapeito, com cisterna cujo gargalo octógono, de cantaria, marcava o centro de uma estrela desenhada por vasos de flores. Sobre varões de ferro, que se levantavam dos alegretes, armavam-se velhas parreiras, agora tupidas em fresca folhagem e sombreando completamente o vasto recinto a qualquer hora do dia.
A nascente, por cima de telhados baixos, descobria-se a ria, com um trecho da costa hortada, o areal doirado da Ilha e o casario de Olhão. Para o norte ficava o quintal, verdadeira cerca nas dimensões e cultura, à qual se descia da varanda por uma elegante escada de cantaria em forma de concha.
Nesse quintal é que estava a colossal figueira lampa, de cujos apetecíveis frutos eu não lograra provar na noite da minha chegada, mas com os quais a miúdo me repimpara doze meses depois graças à generosa amabilidade de Monsenhor. Havia ali, também, grande abundância de outras árvores de pomar: ameixieiras, damasqueiros e pessegueiros, além das leiras de hortaliça e muitas plantas decorativas como espadanas e sardinheiras; de modo que pelo aprazível do sítio, durante o Verão, era na cerca e na varanda que principalmente estacionavam as manas de Monsenhor e foi na varanda que se colocaram as mesas para a refeição, a qual não era jantar, nem ceia, nem merenda, mas participava de todos esses repastos pela natureza dos pratos que a compunham.

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Breve nota:

Aqui vemos o Algarve, seja na quinta senhorial de Estoi, seja numa casa com quintal urbano nas proximidades de Olhão. Manuel Teixeira-Gomes, 7º Presidente da República, algarvio de Portimão, conhece bem esta realidade, tal como Eça conhecia bem Tormes.

As espécies aqui são mediterrânicas: amendoeiras, ciprestes, laranjeiras, alecrim, goivos, buxo e narcisos em Estoi; em Olhão, uvas, figueiras-lampas, ameixeiras, damasqueiros e pessegueiros no quintal, espadanas e sardinheiras como "decorativas".

Os elementos: jardins, pomares, tabuleiros ou terraços, escadarias com balaustres e miradoiros em Estoi;  varanda, cisterna, vasos de flores, alegretes, leiras de hortaliças, em Olhão. Repare-se ainda na escala do quintal, entendido como menor que cerca.

Estoi, classificado como Imóvel de Interesse Público (ver mais em DGPC) , é um local imperdível a visitar no Algarve. Actual Pousada, é fácil fazê-lo; o seu estado de conservação é notável e alguns acontecimentos que aí ocorrem são de extremo interesse. De referir a próposito o "Cozinhando na Paisagem" que se realizou em Setembro de 2013, e com mais informação disponível aqui, e de onde se retira, com a devida vénia a foto abaixo, como convite à visita!


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