domingo, 21 de dezembro de 2014

PORTUGAL - DESGRAÇA NA EIRA POR MIGUEL TORGA, "A CRIAÇÃO DO MUNDO (OS DOIS PRIMEROS DIAS)", (3ª EDIÇÃO, 1952), Ed. Coimbra Editora.



"Era um granizo nunca visto..."


Em frente de minha casa, na eira, trabalhava-se. De tal sorte, que meu Pai nem me foi esperar ao comboio e mandou o moço. Quatorze homens, num compasso perfeito, negros do sol e da poeira, a escorrer água, malhavam vigorosamente. Minha Mãe, minha irmã, minha tia Isabel e Maria Caseira erguiam, varriam, seguravam a codela, ou passavam a coanheira sobre o trigo malhado. Montes de colmo aqui e além. Chegavam molhos enormes, andando. Pelas saias, eram mulheres que os traziam…

Meu Pai, quando me viu chegar, mandou beber e veio ter comigo.

- Não te fui esperar, filho, por causa do pão. Tive medo do tempo. Não está firme. Vai comer alguma coisa. Eu vou-me à vida.

Nisto escureceu de repente. Meu Pai ficou branco e correu para a eira.

- Andai, rapazes, que temos trovoada!

Foi como dessem força à dobadoira. Mas era tarde. Sem outra razão que não fosse um estampido seco e violento que se ouviu, desabou sobre Agarez uma chuva de pedras do tamanho de ovos de galinha, como não havia memória. Era um granizo nunca visto, que feria pessoas e quebrava as telhas dos telhados. Os da eira tentaram resistir para salvar o trigo. Mas era impossível aguentar aquilo. Fugiram acovardados para minha casa. No mesmo terror, homens e mulheres entoavam fervorosamente o Bendito e o Senhor-Deus-Misericórdia. No intervalo das orações, ouvia-se o barulho dos pedaços de telhas e das pedras que caíam no forro da casa. Eu olhava a rua, de uma janela. Um loureiro em frente, no quinta dos  Rebéis, já quase não tinha folhas. Depois passou no caminho o Camilo, montado no seu burro preto, a rezar, e com sangue a escorrer-lhe por debaixo do chapéu. Passou resignado, ferido, sob aquela judiaria de Deus. Meu Pai chegou-se ao pé de mim e disse:

- Estamos desgraçados, meu filho. Lá se foi a novidade. Que sorte a nossa, nem o triguinho recolhi!..

Continuavam a cantar…

- Se…nho…or De…e…e…e…e…us…Mi…se…ri…có…órdia.

Eu, não sei porquê, não rezava nem chorava. Olhava alternadamente para a rua e para dentro de casa, pensando que em verdade estávamos todos desgraçados…Mas nem chorava nem rezava.




terça-feira, 2 de dezembro de 2014

BIOFILIA E PAISAGEM, IN " A CRIAÇÃO. UM APELO PARA SALVAR A VIDA NA TERRA", EDWARD O. WILSON, 2007, Gradiva, Lisboa (ed. original 2006)




"...preferem um ambiente que combine três elementos."

A atracção gravítica da natureza sobre a psique humana pode ser expressa numa expressão única e mais contemporânea, biofilia, que eu defini em 1984 como a tendência inata para desenvolvermos uma ligação emocional à vida e aos processos vivos.

(…)

E que dizer da biofilia? Há um bom exemplo bem à vista. Os investigadores descobriram que quando se dá a pessoas de diferentes culturas, incluindo da América do Norte, da Europa, da Ásia e da África, a possibilidade de escolherem a localização das suas casas e lugares de trabalho, elas preferem um ambiente que combine três elementos. Desejam viver num lugar elevado que lhes permita olhar para baixo e para longe, abarcando, à sua frente, um terreno coberto maioritariamente por vegetação rasteira mas com árvores dispersas e bosques, com um aspecto mais semelhante a uma savana do que a uma pradaria e floresta cerrada e estar perto de um corpo de água, como um lago, um rio ou o mar. Mesmo que todos estes elementos sejam meramente estéticos e não funcionais, como no caso das casas de férias, as pessoas com meios pagarão bom dinheiro para as obterem.

  (…)

Jantei uma vez em casa do falecido Gerard Piel, um ilustre escritor, editor e o fundador da Scientific American. Eu sabia que ele não estava inclinado a aceitar a ideia de uma natureza humana genética. Por isso, deu-me um prazer considerável sair com ele para o seu terraço, bordejado por arbustos em vasos, e olhar lá para baixo com ele, do alto de mais de doze andares, para o bosque, savana e lago do Central Park. Posso apenas imaginar o quanto aquela vista contribuía para aumentar o valor comercial do apartamento – graças às escolhas feitas pelos nossos antepassados africanos.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

PORTUGAL - A ORIGEM DOS MONTADOS, IN "ATRAVÉS DOS CAMPOS", JOSÉ DA SILVA PICÃO,1983, Publicações Dom Quixote, Lisboa (ed. original 1903)



"Tudo faz supor que os montados antigos se criaram quase espontaneamente,..."

Tudo faz supor que os montados antigos se criaram quase espontaneamente, concorrendo pouco a acção do homem para o seu desenvolvimento.

Pelo que se observa ainda hoje em terrenos incultos, cheios de carrascos e chaparros, depreende-se que as azinheiras e sobreiros que aí vemos aos milhares, distanciados ou próximos, em pequenos e grandes agrupamentos, sem a mínima regularidade, antes em disposição caprichosíssima e variada – provêm de antigos carrascais, que dantes ocupavam as terras bravias, Deus sabe desde quando.

A hipótese dos montados serem o produto de bolotas semeadas, ou deixadas pelas aves, afigura-se-me inverosímil sob o ponto de vista geral. Quando muito, pode isso admitir-se para casos isolados de somenos importância.

Os carrascais ocupavam áreas enormes, incultas, de mistura com outros matos silvestres, exactamente como ainda hoje existem em zonas reduzidas. E entre uma vegetação tão espessa, natural era que a mais vigorosa – a do carrasco – fosse triunfando das outras e criando grandes moitas, quase inacessíveis aos gados. Disposição que dava ensejo a que os rebentões maiores e mais defendidos fossem crescendo a pouco e pouco, ao embate de mil contingências e destroços, até se destacarem tanto, que despertavam a atenção do lavrador. Fraca atenção, que se restringia a limpá-los antes ou depois das queimadas, que de oito em oito ou de dez em dez anos costumavam fazer nas terras sujas, a fim de as semearem e lavrarem “à face”. Mas as roças representam um vandalismo inaudito.

Chaparrais imensos havia, e até sobreirais e azinhais, entre manchas enormes de extraordinária altura, que se roçavam imprudentemente, não se resguardando o arvoredo com aceiros e arruadas espaçosas, que os defendessem ou sequer os poupassem, dos estragos do fogo. O lume largava-se à valentona, e tudo aquilo se transformava em chamas gigantescas, sob o sol ardente de Agosto, por entre nuvens de fumo negro, que se avistava a dezenas de léguas. Era medonho! Os pobres dos chaparros, uns morriam logo, outros ficavam meio queimados, e os mais resistentes lá conseguiam escapar, mas com a rama afogueada, em aspecto desolador.

Mas ninguém estranhava. Era estilo. E por ser costume, pouco importava que ardessem. Por muitas que se queimassem algumas escapariam. E se todas se perdessem, lá ficava a cepa vigorosa, que outros criaria tão bons ou melhores. E a cepa criava-os efectivamente, embora com atraso. Porque fosse como fosse, a despeito de todas as selvajarias, os montados vetustos existem em larguíssima escala por toda a província, atestando o triunfo da natureza sobre o vandalismo dos homens. Triunfo relativo, porque certamente, se não houvesse devastações, maiores e melhores arvoredos existiriam.