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| "Era um granizo nunca visto..." |
Em frente de minha casa, na eira, trabalhava-se. De tal sorte, que meu Pai nem me foi esperar ao comboio e mandou o moço. Quatorze homens, num compasso perfeito, negros do sol e da poeira, a escorrer água, malhavam vigorosamente. Minha Mãe, minha irmã, minha tia Isabel e Maria Caseira erguiam, varriam, seguravam a codela, ou passavam a coanheira sobre o trigo malhado. Montes de colmo aqui e além. Chegavam molhos enormes, andando. Pelas saias, eram mulheres que os traziam…
Meu Pai, quando me viu chegar, mandou beber e veio ter
comigo.
- Não te fui esperar, filho, por causa do pão. Tive medo do
tempo. Não está firme. Vai comer alguma coisa. Eu vou-me à vida.
Nisto escureceu de repente. Meu Pai ficou branco e correu
para a eira.
- Andai, rapazes, que temos trovoada!
Foi como dessem força à dobadoira. Mas era tarde. Sem outra
razão que não fosse um estampido seco e violento que se ouviu, desabou sobre
Agarez uma chuva de pedras do tamanho de ovos de galinha, como não havia
memória. Era um granizo nunca visto, que feria pessoas e quebrava as telhas dos
telhados. Os da eira tentaram resistir para salvar o trigo. Mas era impossível
aguentar aquilo. Fugiram acovardados para minha casa. No mesmo terror, homens e
mulheres entoavam fervorosamente o Bendito
e o Senhor-Deus-Misericórdia. No
intervalo das orações, ouvia-se o barulho dos pedaços de telhas e das pedras
que caíam no forro da casa. Eu olhava a rua, de uma janela. Um loureiro em
frente, no quinta dos Rebéis, já quase
não tinha folhas. Depois passou no caminho o Camilo, montado no seu burro
preto, a rezar, e com sangue a escorrer-lhe por debaixo do chapéu. Passou
resignado, ferido, sob aquela judiaria de Deus. Meu Pai chegou-se ao pé de mim
e disse:
- Estamos desgraçados, meu filho. Lá se foi a novidade. Que
sorte a nossa, nem o triguinho recolhi!..
Continuavam a cantar…
- Se…nho…or De…e…e…e…e…us…Mi…se…ri…có…órdia.





