segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

PORTUGAL - A ORIGEM DOS MONTADOS, IN "ATRAVÉS DOS CAMPOS", JOSÉ DA SILVA PICÃO,1983, Publicações Dom Quixote, Lisboa (ed. original 1903)



"Tudo faz supor que os montados antigos se criaram quase espontaneamente,..."

Tudo faz supor que os montados antigos se criaram quase espontaneamente, concorrendo pouco a acção do homem para o seu desenvolvimento.

Pelo que se observa ainda hoje em terrenos incultos, cheios de carrascos e chaparros, depreende-se que as azinheiras e sobreiros que aí vemos aos milhares, distanciados ou próximos, em pequenos e grandes agrupamentos, sem a mínima regularidade, antes em disposição caprichosíssima e variada – provêm de antigos carrascais, que dantes ocupavam as terras bravias, Deus sabe desde quando.

A hipótese dos montados serem o produto de bolotas semeadas, ou deixadas pelas aves, afigura-se-me inverosímil sob o ponto de vista geral. Quando muito, pode isso admitir-se para casos isolados de somenos importância.

Os carrascais ocupavam áreas enormes, incultas, de mistura com outros matos silvestres, exactamente como ainda hoje existem em zonas reduzidas. E entre uma vegetação tão espessa, natural era que a mais vigorosa – a do carrasco – fosse triunfando das outras e criando grandes moitas, quase inacessíveis aos gados. Disposição que dava ensejo a que os rebentões maiores e mais defendidos fossem crescendo a pouco e pouco, ao embate de mil contingências e destroços, até se destacarem tanto, que despertavam a atenção do lavrador. Fraca atenção, que se restringia a limpá-los antes ou depois das queimadas, que de oito em oito ou de dez em dez anos costumavam fazer nas terras sujas, a fim de as semearem e lavrarem “à face”. Mas as roças representam um vandalismo inaudito.

Chaparrais imensos havia, e até sobreirais e azinhais, entre manchas enormes de extraordinária altura, que se roçavam imprudentemente, não se resguardando o arvoredo com aceiros e arruadas espaçosas, que os defendessem ou sequer os poupassem, dos estragos do fogo. O lume largava-se à valentona, e tudo aquilo se transformava em chamas gigantescas, sob o sol ardente de Agosto, por entre nuvens de fumo negro, que se avistava a dezenas de léguas. Era medonho! Os pobres dos chaparros, uns morriam logo, outros ficavam meio queimados, e os mais resistentes lá conseguiam escapar, mas com a rama afogueada, em aspecto desolador.

Mas ninguém estranhava. Era estilo. E por ser costume, pouco importava que ardessem. Por muitas que se queimassem algumas escapariam. E se todas se perdessem, lá ficava a cepa vigorosa, que outros criaria tão bons ou melhores. E a cepa criava-os efectivamente, embora com atraso. Porque fosse como fosse, a despeito de todas as selvajarias, os montados vetustos existem em larguíssima escala por toda a província, atestando o triunfo da natureza sobre o vandalismo dos homens. Triunfo relativo, porque certamente, se não houvesse devastações, maiores e melhores arvoredos existiriam.

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