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| "Tudo faz supor que os montados antigos se criaram quase espontaneamente,..." |
Tudo faz supor que os montados antigos se criaram quase espontaneamente, concorrendo pouco a acção do homem para o seu desenvolvimento.
Pelo que se observa ainda hoje em terrenos incultos, cheios
de carrascos e chaparros, depreende-se que as azinheiras e sobreiros que aí
vemos aos milhares, distanciados ou próximos, em pequenos e grandes
agrupamentos, sem a mínima regularidade, antes em disposição caprichosíssima e
variada – provêm de antigos carrascais, que dantes ocupavam as terras bravias,
Deus sabe desde quando.
A hipótese dos montados serem o produto de bolotas semeadas,
ou deixadas pelas aves, afigura-se-me inverosímil sob o ponto de vista geral.
Quando muito, pode isso admitir-se para casos isolados de somenos importância.
Os carrascais ocupavam áreas enormes, incultas, de mistura
com outros matos silvestres, exactamente como ainda hoje existem em zonas
reduzidas. E entre uma vegetação tão espessa, natural era que a mais vigorosa –
a do carrasco – fosse triunfando das outras e criando grandes moitas, quase
inacessíveis aos gados. Disposição que dava ensejo a que os rebentões maiores e
mais defendidos fossem crescendo a pouco e pouco, ao embate de mil
contingências e destroços, até se destacarem tanto, que despertavam a atenção
do lavrador. Fraca atenção, que se restringia a limpá-los antes ou depois das
queimadas, que de oito em oito ou de dez em dez anos costumavam fazer nas
terras sujas, a fim de as semearem e lavrarem “à face”. Mas as roças representam
um vandalismo inaudito.
Chaparrais imensos havia, e até sobreirais e azinhais, entre
manchas enormes de extraordinária altura, que se roçavam imprudentemente, não
se resguardando o arvoredo com aceiros e arruadas espaçosas, que os defendessem
ou sequer os poupassem, dos estragos do fogo. O lume largava-se à valentona, e tudo aquilo se
transformava em chamas gigantescas, sob o sol ardente de Agosto, por entre
nuvens de fumo negro, que se avistava a dezenas de léguas. Era medonho! Os
pobres dos chaparros, uns morriam logo, outros ficavam meio queimados, e os
mais resistentes lá conseguiam escapar, mas com a rama afogueada, em aspecto
desolador.


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