Tete, segunda, 20 de outubro de 2014
Um exército
que nenhum país
desdenharia. Cerca de 80 homens, na grande maioria brancos, altos, com cara de
gente prática
e corpanzil a condizer. O inglês
é a língua comum, mas ouvem-se
aqui e ali expressões
que só boers,
minhotos ou paulistas podem entoar. Muitos sul-africanos, um ou outro moçambicano, reparo em
dois passaportes do Reino Unido. As senhoras contam-se pelos dedos de uma mão e até parecem
desenquadradas neste universo masculino. Mas seguras de si como qualquer deles.
Uma única família de pai, mãe e dois filhos,
todos árabes,
comerciantes e de turbante, acrescenta à
cena um ar de filme, a bordo deste Avro entre Joanesburgo e Tete.
Chega-se passadas menos de duas horas de viagem, ouvindo a
conversa em inglês
africano de dois vizinhos de lugar. Partilham as aspirações de uma África mais desenvolvida, com mais
classe média,
políticos
melhores, etc...um discurso que, adaptado, não
conhece geografias, está
presente nos 4 cantos do mundo.
Nos homens, as camisas com logotipos bem conhecidos de máquinas pesadas,
instrumentos industriais, empresas de consultoria e mineiras, não deixam dúvidas do porquê da viagem desse exército desarmado: o
carvão de
Moatize, ali encostado aTete.
Á chegada
o calor moçambicano
é bem maior do
que a amena temperatura sul-africana. A fila para colocar os carimbos nos
passaportes é grande
e lenta, a funcionária
do aeroporto manda todos para a gare, simpaticamente tenta que não fique ninguém ao sol. Poucas
ventoinhas, grandes e vintage, que fariam as delícias
de qualquer decorador ocidental, vão
elegantemente enviando um ar quente reciclado, não
se percebe bem para onde. A fila quase não
avança, o
guarda fronteiriço
tem de ver os vistos, por os carimbos, perceber o inglês rápido
que homens práticos
debitam à velocidade
da luz.
E este aeroporto que morosamente recebe os técnicos do carvão, não sabe que
provavelmente terá os
seus dias contados pelos mesmos motivos que os trouxeram aqui. É que a concessão mineira inclui a
zona aeroportuária,
que por sua vez está por
cima da grande jazida. Mais tarde ou mais cedo, talvez um novo aeroporto,
noutro local, acolherá
este exército.
De onde agora estamos restarão
as memórias
das aterragens e descolagens, das esperas, das filas do carimbo e
principalmente julgo que da varanda do café,
à antiga,
sobre a pista.
Entretanto, vejo a minha mala de porão abandonada a um canto da sala das
chegadas. Saio da fila, passo a mala no enorme scaner, recolho-a do outro lado,
saio da gare, apanho um táxi,
só agora me
lembro que ninguém
me disse nada nem eu a ninguém,
estou em Moçambique
talvez "clandestino", sem carimbo no passaporte ou visto verificado.
Avancemos, no regresso logo se vê.
Depois da portagem na entrada da levíssima ponte que o génio de Edgar
Cardoso fez erguer sobre o Zambeze, dois polícias
mandam parar o táxi.
Nem de propósito,
querem ver os meus documentos. Saio do carro, cumprimento-os, perguntam de onde
venho a apontar para a mala orfã
que se mantem como tal, agora na bagageira do táxi. Ao referir Lisboa, qual mágico salvo-conduto,
nada mais é preciso,
apenas fica a sugestão
de contribuir para o refresco dos agentes. Alguns meticais fazem a festa e sigo
aliviado de maiores confusões.Chego
ao velho conhecido Hotel Zambeze, sou recebido como habitual cliente da casa,
vou ao quarto, arrumo as coisas, tomo banho, telefono aos colegas que me
aguardam para prosseguir com os trabalhos do PEOT, marcamos encontro, vai-se
seguir uma intensa semana de trabalho "nas províncias"
do distrito de Tete.
Tete, domingo, 26 de outubro de 2014
8h00. Estou na sala de entrada do aeroporto, onde funciona o check-in. Próximo
de mim o único
funcionário
presente, nascido no mesmo ano que eu: 1962. Mas ele foi prenda de natal, a 25
de Dezembro. Ex-guarda fronteiriço,
agora segurança,
7 filhos, de Moatize; delicia-se com mais coincidências:
que ambos tenhamos como primeiro filho, uma filha! Ambas de 1998. Que um filho
dele e o meu tenham Adelino no nome, que João
(o nome do meu companheiro de espera) e Jorge (o meu), ambos comecem por jota.
Algumas pessoas começam
a entrar e a esperar também;
pouco a pouco o aeroporto começa a ganhar o
movimento que estes "não-lugares"
precisam para se realizarem. A luz também muda e o azul-acinzentado
da manhã, começa a dar lugar a um
amarelo intenso.
Aguardo ainda, não
são
8h30...recordo brevemente a semana, especialmente as idas a Chitima, Chiuta, Mágoè, a épica deslocação a Marávia e Zumbu, a
viagem no Zambeze até
à missão
de Boroma. E os hipopótamos,
apenas ouvidos nas margens no Zumbu e ali ao lado do barco, não longe de Tete.
9h00, check-in feito para Joanesburgo. Lá, terei de fazer para Lisboa. Dos
cartazes e papelinhos colados, um diz que o ébola
não tem cura,
outro aconselha a não
usar as redes mosquiteiras como redes de pesca.
Aqui, o mesmo leque de passageiros que à chegada: homens grandes a falarem
afrikaans, alguns portugueses com os passaportes cor-de-vinho, azuis-escuros
para os moçambicanos,
sotaque brasileiro lá
ao fundo. Poucas mulheres. Também,
dos 11.000 trabalhadores no carvão,
só 250 são mulheres. Mas
algumas não são secretárias, são manobradoras de
maquinaria pesada. Há
também
um ou dois homens com ar de caçador
desportivo, com caixa metálica
rectangular a acompanhar, onde de certeza irá
a sua arma favorita. Moçambique
e em particular esta zona do Zambeze, têm
o apelo da terra remota e rude, onde a caça
ainda não é um passeio no
parque como em muitos países
vizinhos, onde esta actividade é
um grande e muito ordenado negócio.
A pesca também
atrai, particularmente ao lendário
peixe-tigre.
Passo pelo scanner, agora pequeno, esqueço-me da água
na mochila, dizem-me, bebo-a à
vista para evitar dúvidas.
Á entrada da
sala de embarque o visto é
verificado, o carimbo de saída
é posto com
firmeza. Tudo bem! Pronto para embarcar, sempre pronto para regressar...
Na sala de embarque, a coisa vai-se compondo, e o exército da chegada
reorganiza-se para a saída.
Ouvem-se claques das latas de refrigerantes ou cerveja, o micro "freeshop" não atrai esta gente.
Apenas uma senhora forte e jovem, com uma criança
também já forte, entra
decidida. Sairá minutos
depois, parece-me que sem nada comprado.
Os poucos portugueses são
reconhecíveis
pelo seu ar de gente de negócio,
caras fechadas e pelas malas de cabine que seguirão
com os seus donos, tal como a minha, até
Lisboa, amanhã.
Diz no bilhete, embarque às 10h05, já não
serão as de hoje. A LAM tem fama e proveito de atrasos nos voos
domésticos, não nos internacionais. Aguardemos. Ok,
chegou pelas 11h, vejo o colega que me vem substituir, falamos ao telefone
separados por uma parede de vidro. Devemos estar a embarcar, a sair com cerca
de 1 hora de atraso, nada de mais.
Passei uma semana embrenhado na paisagem profunda de Moçambique; as recordações, imagens e este
escrito ajudarão
a que o passado não
seja um país
distante.




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