quarta-feira, 19 de novembro de 2014

TETE, MOÇAMBIQUE, CHEGADA E PARTIDA, PAISAGEM PELO MEIO



Tete, segunda, 20 de outubro de 2014

Um exército que nenhum país desdenharia. Cerca de 80 homens, na grande maioria brancos, altos, com cara de gente prática e corpanzil a condizer. O inglês é a língua comum, mas ouvem-se aqui e ali expressões que só boers, minhotos ou paulistas podem entoar. Muitos sul-africanos, um ou outro moçambicano, reparo em dois passaportes do Reino Unido. As senhoras contam-se pelos dedos de uma mão e até parecem desenquadradas neste universo masculino. Mas seguras de si como qualquer deles. Uma única família de pai, mãe e dois filhos, todos árabes, comerciantes e de turbante, acrescenta à cena um ar de filme, a bordo deste Avro entre Joanesburgo e Tete.

Chega-se passadas menos de duas horas de viagem, ouvindo a conversa em inglês africano de dois vizinhos de lugar. Partilham as aspirações de uma África mais desenvolvida, com mais classe média, políticos melhores, etc...um discurso que, adaptado, não conhece geografias, está presente nos 4 cantos do mundo.

Nos homens, as camisas com logotipos bem conhecidos de máquinas pesadas, instrumentos industriais, empresas de consultoria e mineiras, não deixam dúvidas do porquê da viagem desse exército desarmado: o carvão de Moatize, ali encostado aTete.

Á chegada o calor moçambicano é bem maior do que a amena temperatura sul-africana. A fila para colocar os carimbos nos passaportes é grande e lenta, a funcionária do aeroporto manda todos para a gare, simpaticamente tenta que não fique ninguém ao sol. Poucas ventoinhas, grandes e vintage, que fariam as delícias de qualquer decorador ocidental, vão elegantemente enviando um ar quente reciclado, não se percebe bem para onde. A fila quase não avança, o guarda fronteiriço tem de ver os vistos, por os carimbos, perceber o inglês rápido que homens práticos debitam à velocidade da luz.

E este aeroporto que morosamente recebe os técnicos do carvão, não sabe que provavelmente terá os seus dias contados pelos mesmos motivos que os trouxeram aqui. É que a concessão mineira inclui a zona aeroportuária, que por sua vez está por cima da grande jazida. Mais tarde ou mais cedo, talvez um novo aeroporto, noutro local, acolherá este exército. De onde agora estamos restarão as memórias das aterragens e descolagens, das esperas, das filas do carimbo e principalmente julgo que da varanda do café, à antiga, sobre a pista.

Entretanto, vejo a minha mala de porão abandonada a um canto da sala das chegadas. Saio da fila, passo a mala no enorme scaner, recolho-a do outro lado, saio da gare, apanho um táxi, só agora me lembro que ninguém me disse nada nem eu a ninguém, estou em Moçambique talvez "clandestino", sem carimbo no passaporte ou visto verificado. Avancemos, no regresso logo se vê.

Depois da portagem na entrada da levíssima ponte que o génio de Edgar Cardoso fez erguer sobre o Zambeze, dois polícias mandam parar o táxi. Nem de propósito, querem ver os meus documentos. Saio do carro, cumprimento-os, perguntam de onde venho a apontar para a mala orfã que se mantem como tal, agora na bagageira do táxi. Ao referir Lisboa, qual mágico salvo-conduto, nada mais é preciso, apenas fica a sugestão de contribuir para o refresco dos agentes. Alguns meticais fazem a festa e sigo aliviado de maiores confusões.Chego ao velho conhecido Hotel Zambeze, sou recebido como habitual cliente da casa, vou ao quarto, arrumo as coisas, tomo banho, telefono aos colegas que me aguardam para prosseguir com os trabalhos do PEOT, marcamos encontro, vai-se seguir uma intensa semana de trabalho "nas províncias" do distrito de Tete.
 


Tete, domingo, 26 de outubro de 2014

8h00. Estou na sala de entrada do aeroporto, onde funciona  o check-in. Próximo de mim o único funcionário presente, nascido no mesmo ano que eu: 1962. Mas ele foi prenda de natal, a 25 de Dezembro. Ex-guarda fronteiriço, agora segurança, 7 filhos, de Moatize; delicia-se com mais coincidências: que ambos tenhamos como primeiro filho, uma filha! Ambas de 1998. Que um filho dele e o meu tenham Adelino no nome, que João (o nome do meu companheiro de espera) e Jorge (o meu), ambos comecem por jota.

Algumas pessoas começam a entrar e a esperar também; pouco a pouco o  aeroporto começa a ganhar o movimento que estes "não-lugares" precisam para se realizarem.  A luz também muda e o azul-acinzentado da manhã, começa a dar lugar a um amarelo intenso.

Aguardo ainda, não são 8h30...recordo brevemente a semana, especialmente as idas a Chitima, Chiuta, Mágoè, a épica deslocação a Marávia e Zumbu, a viagem no Zambeze até à missão de Boroma. E os hipopótamos, apenas ouvidos nas margens no Zumbu e ali ao lado do barco, não longe de Tete.

9h00, check-in feito para Joanesburgo. Lá, terei de fazer para Lisboa. Dos cartazes e papelinhos colados, um diz que o ébola não tem cura, outro aconselha a não usar as redes mosquiteiras como redes de pesca.

Aqui, o mesmo leque de passageiros que à chegada: homens grandes a falarem afrikaans, alguns portugueses com os passaportes cor-de-vinho, azuis-escuros para os moçambicanos, sotaque brasileiro lá ao fundo. Poucas mulheres. Também, dos 11.000 trabalhadores no carvão, só 250 são mulheres. Mas algumas não são secretárias, são manobradoras de maquinaria pesada. Há também um ou dois homens com ar de caçador desportivo, com caixa metálica rectangular a acompanhar, onde de certeza irá a sua arma favorita. Moçambique e em particular esta zona do Zambeze, têm o apelo da terra remota e rude, onde a caça ainda não é um passeio no parque como em muitos países vizinhos, onde esta actividade é um grande e muito ordenado negócio. A pesca também atrai, particularmente ao lendário peixe-tigre.

Passo pelo scanner, agora pequeno, esqueço-me da água na mochila, dizem-me, bebo-a à vista para evitar dúvidas. Á entrada da sala de embarque o visto é verificado, o carimbo de saída é posto com firmeza. Tudo bem! Pronto para embarcar, sempre pronto para regressar...

Na sala de embarque, a coisa vai-se compondo, e o exército da chegada reorganiza-se para a saída. Ouvem-se claques das latas de refrigerantes ou cerveja, o  micro "freeshop" não atrai esta gente. Apenas uma senhora forte e jovem, com uma criança também já forte, entra decidida. Sairá minutos depois, parece-me que sem nada comprado.

Os poucos portugueses são reconhecíveis pelo seu ar de gente de negócio, caras fechadas e pelas malas de cabine que seguirão com os seus donos, tal como a minha, até Lisboa, amanhã. Diz no bilhete, embarque às 10h05, já não serão as de hoje. A LAM tem fama e proveito de atrasos nos voos domésticos, não nos internacionais. Aguardemos. Ok, chegou pelas 11h, vejo o colega que me vem substituir, falamos ao telefone separados por uma parede de vidro. Devemos estar a embarcar, a sair com cerca de 1 hora de atraso, nada de mais.

Passei uma semana embrenhado na paisagem profunda de Moçambique; as recordações, imagens e este escrito ajudarão a que o passado não seja um país distante.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

CABO VERDE - OS CORVOS DE SÃO NICOLAU, EM "CHIQUINHO" DE BALTASAR LOPES (1947), Biblioteca editores Indepentes, ed. 2008, Lisboa

"Quando caia molha boa, a terra renascia no verde das plantações"


Quando caiam as chuvas, acabava-se para nós a vida boa de malandrear pelo Caleijão depois das horas de aula. A terra exigia o seu tributo desde os primeiros anos. Gozávamos largamente a nossa liberdade no tempo seco, porque já sabiamos que nas as-águas o dia todo era para as hortas. A enxada esperava gulosamente os seus párias. Enxadinha curta encabada em rabo de laranjeira, lá tinha a meninência com que se entreter o dia todo, puxando ao sol como os mais velhos.
O trabalho mais leve era a guarda do corvo. Eu, que não lombava na enxada, tinha também de ir para a guarda. O dia todo, enchíamos o ar com os nossos gritos, espantando as aves. Os mocinhos gozavam aquela liberdade, na antecipação dos trabalhos mais pesados para diante.
Quando caia molha boa, a terra renascia no verde das plantações. A erva tenra encabritava-se na pressa de aproveitar a humidade. A vitalidade renascente da terra acordava a bicharada do seu torpor dos meses da estação seca. Rasteiras, alapardadas entre as ervas e moitas da lantuna, as codornizes orquestravam o seu cantar estralejante, precipitado no final com uma decisão súbita de viagem, que lhes punha certa inquietação no voo rasteiro e repentino:

Pedro Piedade, Pedro Piedade
béu, béu...
Prò norte, prò norte,
com todo tareco...

Sobre o verde das hortas e dos campos de pastagem, era já a multidão metediça e perturbadora das moscas, que vinham de zoada participar no banquete de verdura e atrapalhar o sossego das vacas pachorrentas. Os corvos vinham voejando baixo sobre as sementeiras. Quando se assentavam nas hortas, ficavam pulando de cova em cova em saltitos cómicos de velhos de andar assimétrico. E o povo tinha agouro com aquele quá-quá constante que parece estar sempre chamando a morte para os tectos da criatura. Nas hortas em que ainda se semeava, o comilão não se esquecia de recomendar aos trabalhadores que não enterrassem apenas três grãos, mas sim quatro; o quarto era décima devida à sua alta senhoria de proprietário vagabundo, sem impostos e sem trabalho:

Põe quatro, põe quatro!

Onde o milhinho já estava crescido e livre das suas arremetidas, o grande filho-de-quarenta-pais até mudava de língua, e era em americano que ordenava aos 
trabalhadores que se apressassem, para mais cedo o milho dar espigas:

Hurry up, hurry up!

Receberia a décima nas colheitas, pondo no peito as espigas debulhadas grão a grão. Debalde enxotávamos os corvos com pedras lançadas nas fundas, gritos e bater de latas. Lançavam-se em flecha no céu claro, davam uma volta escarninha, com demoras filosóficas junto dos companheiros da farra, para voltarem momentos depois a esvoaçar baixo, passando e repassando a sua sombra malfazeja sobre as nossas cabeças:

- Vai ensombrar a tua mãe, maldito! Não tens sombra para ti, quanto mais para dares!

Lá vai ele!!!

Imagem retirada de Hazevoet, Cornelius (1995) - "The Birds of the Cape Verde Islands",
British Ornithologist's Union, Tring

sábado, 15 de novembro de 2014

UMA OUTRA LEITURA - "READING THE LANDSCAPE", MAY THEILGAARD WATTS, 1957, The Macmillan Company, New York

"There is good reading on the land..."


There is good reading on the land, first-hand reading, involving no symbols. 

The records are written in forests, in fence-rows, in bogs, in play-grounds, in pastures, in gardens, in canyons, in tree rings.

The records were made by sun and shade; by wind, rain, and fire; by time; and by animals.

As we read what is written on the land, finding accounts of the past, predictions of the future, and comments on the present, we discover that there are many interwoven strands to each story, offering several possible interpretations.

Interpreting this reading matter, in place, on the land, seeing living things in their total environment, is an adventure into the field that is called ecology.

This ecology is a diverting traveling companion. It points out a bit of virgin prairie on a railroad right-of-way; it discovers the differing forests on north-facing and south-facing slopes; it finds evidence of long-dead Indian fires; it shows an island moving downstream; it interprets the changing shapes of evergreen, cattle, porches, and barns. It is an equally good companion for one staying at home. It finds a story in a schoolyard, in the corner of an old cemetery, in a foundation planting, and even in a window box.



breve nota:

O título completo é "Reading the Landscape. An adventure in Ecology"...assim fica mais bonito e explícito.
May Theilgaard Watts, "Naturalist" do "The Morton Arboretum, Lisle, Illinois", que se saiba foi a primeira pessoa a publicar sobre a ideia de ler a paisagem como um livro e de como tal ser uma interpretação da ecologia local.
13 brilhantes capítulos, desde as florestas de magnólias, às sebes de arame farpado, aos lagos, às encostas e cumes, numa deslumbrante e ilustrada descrição das principais paisagens da América do Norte. Um clássico imperdível, a merecer redescoberta.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

CABO VERDE - OS GAFANHOTOS NA BOAVISTA, IN "A ILHA FANTÁSTICA", GERMANO ALMEIDA, 1999, Ed. Caminho, Lisboa (ed. original 1994)


",,,um belo dia desembarcou na costa do Norte uma invasão de gafanhotos vorazes."

Tinha sido uma luta renhida a do povo contra as areias atacando as hortas de pé-de-banco. Mas paliçadas de tarafe, carqueja, ramos de tamareira, tudo tinha sido conquistado pela areia demoníaca, de tal forma que as tamareiras de quatro a seis vezes mais altas que um homem ficaram ao nível do chão afogando-se na areia. Num ano tinha parecido que a vida melhorava porque choveu em Julho e houve festa de chuva com muitas fuscas e muitos corvos apanhados aos sacos, molhados e sem poderem voar, e toda a gente correu para o seu pedaço de chão e semeou e mondou na esperança das chuvas de Outubro. Mas em vez delas um belo dia desembarcou na costa do Norte uma invasão de gafanhotos vorazes. Foi como se tivesse sido uma invasão programada porque desembarcaram ao mesmo tempo em diversos pontos e tomaram a ilha de assalto e limparam tudo que podia confundir-se com uma planta. E quando acabaram de comer tudo que era verde invadiram as casas e durante dias foi uma loucura colectiva porque apareciam gafanhotos nas camas, nas fraldas dos bebés, e até nas panelas de comida. Mas depois morreram e secaram-se ao sol e todos respiraram de alívio, até que nas primeiras chuvas do ano seguinte se viu que não, que os gafanhotos eram agora gente da casa porque às primeiras chuvadas a terra povoava-se de gafanhoto e a esperança era que morresse sem desovar, mas por muitos anos foi aquele nascer, comer, devorar, morrer.




sexta-feira, 7 de novembro de 2014

BRASIL - A AMAZÓNIA POR FERREIRA DE CASTRO, "A SELVA" (1930), Guimarães e Cia. Editores, ed. 1979, Lisboa

"Daquela bárbara grandiosidade e da sua estranha beleza, uma só forte impressão ficava..."
- Ande! Ande, seu Alberto!

 Desceu e, cem metros além, que mais não possuía a clareira, já estavam na mata. A “estrada” não tinha a largura do varadouro percorrido na véspera; trilho quase imperceptível, sobre folhas mortas e raízes, dobra aqui, endireita ali, verga a cabeça acolá para evitar galhos e cipós, ia ligando, no mistério da floresta, uma seringueira à outra.

Amanhecia e a luz fosca que despertara Firmino branqueava agora a selva nas alturas, baixando rapidamente através das ramagens e iluminado as salas aéreas que por vezes se escortinavam entre a multidão vegetal.


A meio, porém dos fustes anciãos, onde já chegavam os chapéus novos dos infantes, essa grande claridade solar, marchando para a terra, encontrava a oposição da ramaria que ali se fechava espessamente em mancha ainda negrusca.


Por toda a parte havia uma orquestra invisível, feita de aves trinando melodias diferentes, que se diluíam frequentemente num ritmo tão suave que era quase o silêncio verificado, na véspera, por Alberto, mas agora mais vivo, mais alvoroçante e integrado no esplendor da manhã.


De quando em quando, como se alternassem, subia pelas narinas, perturbando o olfacto, um cheiro forte de húmus em combustão, de troncos e folhagem apodrecendo no solo negro e húmido; ou então errava, por largos trechos, um aroma de ignorado jardim, perfume original e precioso como nunca o recolheram os frascos caprichosos da França.


Adivinhava-se a luta desesperada de caules e ramos, ali onde dificilmente se encontrava um palmo de chão que não alimentasse vida triunfante. A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo. O animal esfrangalhava-se no império vegetal e, para ter alguma voz na solidão reinante, forçoso se lhe tornava vestir pele de fera. A árvore solitária, que borda melancolicamente campos e regatos na Europa, perdia ali a sua graça e romântica sugestão e, surgindo em brenha inquietante, impunha-se como um inimigo. Dir-se-ia que a selva tinha, como os monstros fabulosos, mil olhos ameaçadores, que espiavam de todos os lados. Nada a assemelhava às últimas florestas do velho mundo, onde o espírito busca enlevo e o corpo frescura; assustava com o seu segredo, com o seu mistério flutuante e as suas eternas sombras, que davam às pernas nervoso anseio de fuga.


Vista uma légua parecia ter-se visto tudo. Só a água, presa nos lagos ou deslizando nos rios e igarapés, quebrava, com a abertura de clareiras, o emaranhado aparentemente uniforme. E, contudo, havia ali uma variedade vegetal assombrosa, com milhentos indivíduos diferentes a confundirem-se e a engalfinhar-se mutuamente, como numa raiva surda, eviterna, mas quase sempre com a mesma expressão. Daquela bárbara grandiosidade e da sua estranha beleza, uma só forte impressão ficava: a inicial, que nunca mais se esquecia e nunca mais também se voltava a sentir plenamente. Solo de constantes parturejamentos, obstinado na ânsia de criar, a sua cabeleira, contemplada por fora, sugeria vida liberta num mundo virgem, ainda não tocado pelos conceitos humanos; vista por dentro, oprimia e fazia anelar a morte. Só a luz obrigava o monstro a mudar de fisionomia, revelando as suas pesadas atitudes, mas persistindo sempre no seu ar enigmático.

pags. 105-107

(in "A Fauna. Vida e costumes dos animais selvagens. Volume VIII - América do Sul" a obra do Dr. Felix Rodriguez de la Fuente, que - conjuntamente com a magnífica série de televisão "O Homem e a Terra" - marcou a minha geração de biólogos, florestais, paisagistas, etc,.etc...)