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| ",,,um belo dia desembarcou na costa do Norte uma invasão de gafanhotos vorazes." |
Tinha
sido uma luta renhida a do povo contra as areias atacando as hortas de
pé-de-banco. Mas paliçadas de tarafe, carqueja, ramos de tamareira, tudo tinha
sido conquistado pela areia demoníaca, de tal forma que as tamareiras de quatro
a seis vezes mais altas que um homem ficaram ao nível do chão afogando-se na
areia. Num ano tinha parecido que a vida melhorava porque choveu em Julho e
houve festa de chuva com muitas fuscas e muitos corvos apanhados aos sacos,
molhados e sem poderem voar, e toda a gente correu para o seu pedaço de chão e
semeou e mondou na esperança das chuvas de Outubro. Mas em vez delas um belo
dia desembarcou na costa do Norte uma invasão de gafanhotos vorazes. Foi como
se tivesse sido uma invasão programada porque desembarcaram ao mesmo tempo em
diversos pontos e tomaram a ilha de assalto e limparam tudo que podia
confundir-se com uma planta. E quando acabaram de comer tudo que era verde
invadiram as casas e durante dias foi uma loucura colectiva porque apareciam
gafanhotos nas camas, nas fraldas dos bebés, e até nas panelas de comida. Mas
depois morreram e secaram-se ao sol e todos respiraram de alívio, até que nas
primeiras chuvas do ano seguinte se viu que não, que os gafanhotos eram agora
gente da casa porque às primeiras chuvadas a terra povoava-se de gafanhoto e a
esperança era que morresse sem desovar, mas por muitos anos foi aquele nascer,
comer, devorar, morrer.



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