segunda-feira, 10 de novembro de 2014

CABO VERDE - OS GAFANHOTOS NA BOAVISTA, IN "A ILHA FANTÁSTICA", GERMANO ALMEIDA, 1999, Ed. Caminho, Lisboa (ed. original 1994)


",,,um belo dia desembarcou na costa do Norte uma invasão de gafanhotos vorazes."

Tinha sido uma luta renhida a do povo contra as areias atacando as hortas de pé-de-banco. Mas paliçadas de tarafe, carqueja, ramos de tamareira, tudo tinha sido conquistado pela areia demoníaca, de tal forma que as tamareiras de quatro a seis vezes mais altas que um homem ficaram ao nível do chão afogando-se na areia. Num ano tinha parecido que a vida melhorava porque choveu em Julho e houve festa de chuva com muitas fuscas e muitos corvos apanhados aos sacos, molhados e sem poderem voar, e toda a gente correu para o seu pedaço de chão e semeou e mondou na esperança das chuvas de Outubro. Mas em vez delas um belo dia desembarcou na costa do Norte uma invasão de gafanhotos vorazes. Foi como se tivesse sido uma invasão programada porque desembarcaram ao mesmo tempo em diversos pontos e tomaram a ilha de assalto e limparam tudo que podia confundir-se com uma planta. E quando acabaram de comer tudo que era verde invadiram as casas e durante dias foi uma loucura colectiva porque apareciam gafanhotos nas camas, nas fraldas dos bebés, e até nas panelas de comida. Mas depois morreram e secaram-se ao sol e todos respiraram de alívio, até que nas primeiras chuvas do ano seguinte se viu que não, que os gafanhotos eram agora gente da casa porque às primeiras chuvadas a terra povoava-se de gafanhoto e a esperança era que morresse sem desovar, mas por muitos anos foi aquele nascer, comer, devorar, morrer.




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