terça-feira, 18 de novembro de 2014

CABO VERDE - OS CORVOS DE SÃO NICOLAU, EM "CHIQUINHO" DE BALTASAR LOPES (1947), Biblioteca editores Indepentes, ed. 2008, Lisboa

"Quando caia molha boa, a terra renascia no verde das plantações"


Quando caiam as chuvas, acabava-se para nós a vida boa de malandrear pelo Caleijão depois das horas de aula. A terra exigia o seu tributo desde os primeiros anos. Gozávamos largamente a nossa liberdade no tempo seco, porque já sabiamos que nas as-águas o dia todo era para as hortas. A enxada esperava gulosamente os seus párias. Enxadinha curta encabada em rabo de laranjeira, lá tinha a meninência com que se entreter o dia todo, puxando ao sol como os mais velhos.
O trabalho mais leve era a guarda do corvo. Eu, que não lombava na enxada, tinha também de ir para a guarda. O dia todo, enchíamos o ar com os nossos gritos, espantando as aves. Os mocinhos gozavam aquela liberdade, na antecipação dos trabalhos mais pesados para diante.
Quando caia molha boa, a terra renascia no verde das plantações. A erva tenra encabritava-se na pressa de aproveitar a humidade. A vitalidade renascente da terra acordava a bicharada do seu torpor dos meses da estação seca. Rasteiras, alapardadas entre as ervas e moitas da lantuna, as codornizes orquestravam o seu cantar estralejante, precipitado no final com uma decisão súbita de viagem, que lhes punha certa inquietação no voo rasteiro e repentino:

Pedro Piedade, Pedro Piedade
béu, béu...
Prò norte, prò norte,
com todo tareco...

Sobre o verde das hortas e dos campos de pastagem, era já a multidão metediça e perturbadora das moscas, que vinham de zoada participar no banquete de verdura e atrapalhar o sossego das vacas pachorrentas. Os corvos vinham voejando baixo sobre as sementeiras. Quando se assentavam nas hortas, ficavam pulando de cova em cova em saltitos cómicos de velhos de andar assimétrico. E o povo tinha agouro com aquele quá-quá constante que parece estar sempre chamando a morte para os tectos da criatura. Nas hortas em que ainda se semeava, o comilão não se esquecia de recomendar aos trabalhadores que não enterrassem apenas três grãos, mas sim quatro; o quarto era décima devida à sua alta senhoria de proprietário vagabundo, sem impostos e sem trabalho:

Põe quatro, põe quatro!

Onde o milhinho já estava crescido e livre das suas arremetidas, o grande filho-de-quarenta-pais até mudava de língua, e era em americano que ordenava aos 
trabalhadores que se apressassem, para mais cedo o milho dar espigas:

Hurry up, hurry up!

Receberia a décima nas colheitas, pondo no peito as espigas debulhadas grão a grão. Debalde enxotávamos os corvos com pedras lançadas nas fundas, gritos e bater de latas. Lançavam-se em flecha no céu claro, davam uma volta escarninha, com demoras filosóficas junto dos companheiros da farra, para voltarem momentos depois a esvoaçar baixo, passando e repassando a sua sombra malfazeja sobre as nossas cabeças:

- Vai ensombrar a tua mãe, maldito! Não tens sombra para ti, quanto mais para dares!

Lá vai ele!!!

Imagem retirada de Hazevoet, Cornelius (1995) - "The Birds of the Cape Verde Islands",
British Ornithologist's Union, Tring

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