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| " ...um fio de água apontava, numa ligeireza coleante e espantosa de cobra" |
Há oito
dias que relampejava no horizonte. Meu avô ficava, de noite, por muito tempo, a
espreitar o abrir rápido do relâmpago para os lados de cima. E quando se
cansava de tanto esperar, punha os moleques no seu lugar.
Um dia,
para as cordas das nascentes do Paraíba, via-se quase rente ao horizonte, um
abrir longínquo e espaçado de relâmpago: era Inverno por certo no alto sertão.
As experiências confirmavam que com duas semanas de Inverno o Paraíba apontaria
na várzea com a sua primeira cabeça de água. O rio no Verão ficava seco, de se
atravessar a pé enxuto. Apenas, aqui e ali, pelo seu leito, formavam-se grandes
poços, que venciam a estiagem. Nestes pequenos açudes pescava-se, lavavam-se os
cavalos, tomava-se banho. Nas vazantes plantavam batata doce e cavavam pequenas
cacimbas para o abastecimento de gente das caatingas, andando léguas, de pote à
cabeça. O seu leito de areia branca cobria-se de salsas e junco verde-escuro,
enquanto pelas margens os marizeiros davam uma sombra amiga nos meios-dias. Nas
grandes secas o povo pobre vivia da água salobra e das vazantes do Paraíba. O
gado vinha a entreter a sua fome no capim ralo que crescia por ali. Com a
notícia dos relâmpagos nas cabeceiras, entraram a arrancar as batatas e os
jirimuns das vazantes.
O povo
gostava de ver o rio cheio, a água correndo de barreira a barreira. Porque era
uma alegria por toda a parte quando se falava da cheia que descia. E anunciavam
a chegada como se tratasse de visita de gente viva: - a cheia já passou na
Guarita, vem em Itabaiana.
A notícia
corria de boca em boca. No engenho era no que se falava. A canoa já estava
calafetada e pintada de novo. Nós todos dormíamos pensando na cabeça de cheia
que não tardaria. Eu aguardava com uma ansiedade medonha essa cheia de que
tanto se falava. No Recife, vira o Capibaribe nos seus dias de enchente,
coberto de balsas, mas o Capibaribe vivia todos os dias a encher e a vazar com
as marés. Por isto pensava tanto na cheia do Paraíba, como em coisa inédita
para mim.
Vieram
dizer, ao engenho:
-
O
chefe da estação de Pilar recebeu um aviso de que a cheia já vinha em
Itabaiana.
Não
custava, portanto, a apontar entre nós. Diziam que o rio vinha de barreira a
barreira. E uma tarde um moleque chegou às carreiras, gritando:
-
A
cheia vem no engenho de seu Lula!
Todos
correram para a beira do rio - os moleques, os meninos, os trabalhadores do
engenho, o meu avô. E começava-se a ouvir a gritaria da gente que ficava pelas
margens:
-
Olha
a cheia! Olha a cheia!
-
Ainda
vem longe - diziam uns.
-
Qual
nada. Olha os urubus a voarem por ali!
De facto,
dentro em pouco, um fio de água apontava, numa ligeireza coleante e espantosa
de cobra. Era a cabeça da cheia correndo. E quando passava por perto da gente,
arrastando basculhos e garranchos, já a vista alcançava o leito do rio todo
tomado de água.
-
É
muita água. O rio vai às vargens. Vem com força de açude arrombado.
O povo a
gritar por todos os lados. E o barulho das águas que cresciam em ondas
enchendo-nos os ouvidos. Num instante não se via nem um banco de areia
descoberto. Tudo estava inundado. E as águas subiam pelas barreiras. Começavam
então a descer grandes tábuas de espumas, árvores inteiras arrancadas pela
raiz.
-
Lá
vem um boi morto! Olha uma cangalha!
E uma
linha de madeira lavrada.
- Aquilo é
cumieira de casa que a cheia deitou abaixo.
Longe
ouvia-se um gemido como um urro de boi. Estavam tocando o búzio para os que
ficavam mais distantes. O rumor que as águas faziam nem deixava ouvir-se o que
gritavam do outro lado do rio. As ribanceiras que a correnteza ruía por baixo
arriavam com estrondo abafado de terra caída.
Com a
noite, um coro melancólico de não sei quantos sapos roncava sinistramente, como
vozes que viessem do fundo da terra cavada pelos seus confins pela verruma dos
redemoinhos.
Eu fiquei
a pensar de onde viria tanta água barrenta, tanta espuma, tantos pedaços de
pau. E custava a crer que uma chuvada no sertão desse para tanta coisa.
O filme realizado por Walter Lima Junior, 1965: https://www.youtube.com/watch?v=S4qJ6fM90DM
as cheias, 26:07 a 29:30
O filme realizado por Walter Lima Junior, 1965: https://www.youtube.com/watch?v=S4qJ6fM90DM
as cheias, 26:07 a 29:30

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