segunda-feira, 3 de novembro de 2014

BRASIL - AS CHEIAS DO RIO PARAÍBA, POR JOSÉ LINS DO REGO, "MENINO DE ENGENHO" (1932), Livros do Brasil e Editorial Verbo, ed. 1971, Lisboa

" ...um fio de água apontava, numa ligeireza coleante e espantosa de cobra"
Há oito dias que relampejava no horizonte. Meu avô ficava, de noite, por muito tempo, a espreitar o abrir rápido do relâmpago para os lados de cima. E quando se cansava de tanto esperar, punha os moleques no seu lugar.



Um dia, para as cordas das nascentes do Paraíba, via-se quase rente ao horizonte, um abrir longínquo e espaçado de relâmpago: era Inverno por certo no alto sertão. As experiências confirmavam que com duas semanas de Inverno o Paraíba apontaria na várzea com a sua primeira cabeça de água. O rio no Verão ficava seco, de se atravessar a pé enxuto. Apenas, aqui e ali, pelo seu leito, formavam-se grandes poços, que venciam a estiagem. Nestes pequenos açudes pescava-se, lavavam-se os cavalos, tomava-se banho. Nas vazantes plantavam batata doce e cavavam pequenas cacimbas para o abastecimento de gente das caatingas, andando léguas, de pote à cabeça. O seu leito de areia branca cobria-se de salsas e junco verde-escuro, enquanto pelas margens os marizeiros davam uma sombra amiga nos meios-dias. Nas grandes secas o povo pobre vivia da água salobra e das vazantes do Paraíba. O gado vinha a entreter a sua fome no capim ralo que crescia por ali. Com a notícia dos relâmpagos nas cabeceiras, entraram a arrancar as batatas e os jirimuns das vazantes.



O povo gostava de ver o rio cheio, a água correndo de barreira a barreira. Porque era uma alegria por toda a parte quando se falava da cheia que descia. E anunciavam a chegada como se tratasse de visita de gente viva: - a cheia já passou na Guarita, vem em Itabaiana.



A notícia corria de boca em boca. No engenho era no que se falava. A canoa já estava calafetada e pintada de novo. Nós todos dormíamos pensando na cabeça de cheia que não tardaria. Eu aguardava com uma ansiedade medonha essa cheia de que tanto se falava. No Recife, vira o Capibaribe nos seus dias de enchente, coberto de balsas, mas o Capibaribe vivia todos os dias a encher e a vazar com as marés. Por isto pensava tanto na cheia do Paraíba, como em coisa inédita para mim.



Vieram dizer, ao engenho:

-    O chefe da estação de Pilar recebeu um aviso de que a cheia já vinha em Itabaiana.



Não custava, portanto, a apontar entre nós. Diziam que o rio vinha de barreira a barreira. E uma tarde um moleque chegou às carreiras, gritando:

-    A cheia vem no engenho de seu Lula!



Todos correram para a beira do rio - os moleques, os meninos, os trabalhadores do engenho, o meu avô. E começava-se a ouvir a gritaria da gente que ficava pelas margens:

-    Olha a cheia! Olha a cheia!

-    Ainda vem longe - diziam uns.

-    Qual nada. Olha os urubus a voarem por ali!



De facto, dentro em pouco, um fio de água apontava, numa ligeireza coleante e espantosa de cobra. Era a cabeça da cheia correndo. E quando passava por perto da gente, arrastando basculhos e garranchos, já a vista alcançava o leito do rio todo tomado de água.

-    É muita água. O rio vai às vargens. Vem com força de açude arrombado.



O povo a gritar por todos os lados. E o barulho das águas que cresciam em ondas enchendo-nos os ouvidos. Num instante não se via nem um banco de areia descoberto. Tudo estava inundado. E as águas subiam pelas barreiras. Começavam então a descer grandes tábuas de espumas, árvores inteiras arrancadas pela raiz.

-    Lá vem um boi morto! Olha uma cangalha!

E uma linha de madeira lavrada.

- Aquilo é cumieira de casa que a cheia deitou abaixo.


Longe ouvia-se um gemido como um urro de boi. Estavam tocando o búzio para os que ficavam mais distantes. O rumor que as águas faziam nem deixava ouvir-se o que gritavam do outro lado do rio. As ribanceiras que a correnteza ruía por baixo arriavam com estrondo abafado de terra caída.



Com a noite, um coro melancólico de não sei quantos sapos roncava sinistramente, como vozes que viessem do fundo da terra cavada pelos seus confins pela verruma dos redemoinhos.



Eu fiquei a pensar de onde viria tanta água barrenta, tanta espuma, tantos pedaços de pau. E custava a crer que uma chuvada no sertão desse para tanta coisa.

O filme realizado por Walter Lima Junior, 1965: https://www.youtube.com/watch?v=S4qJ6fM90DM
as cheias, 26:07 a 29:30

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