sexta-feira, 7 de novembro de 2014

BRASIL - A AMAZÓNIA POR FERREIRA DE CASTRO, "A SELVA" (1930), Guimarães e Cia. Editores, ed. 1979, Lisboa

"Daquela bárbara grandiosidade e da sua estranha beleza, uma só forte impressão ficava..."
- Ande! Ande, seu Alberto!

 Desceu e, cem metros além, que mais não possuía a clareira, já estavam na mata. A “estrada” não tinha a largura do varadouro percorrido na véspera; trilho quase imperceptível, sobre folhas mortas e raízes, dobra aqui, endireita ali, verga a cabeça acolá para evitar galhos e cipós, ia ligando, no mistério da floresta, uma seringueira à outra.

Amanhecia e a luz fosca que despertara Firmino branqueava agora a selva nas alturas, baixando rapidamente através das ramagens e iluminado as salas aéreas que por vezes se escortinavam entre a multidão vegetal.


A meio, porém dos fustes anciãos, onde já chegavam os chapéus novos dos infantes, essa grande claridade solar, marchando para a terra, encontrava a oposição da ramaria que ali se fechava espessamente em mancha ainda negrusca.


Por toda a parte havia uma orquestra invisível, feita de aves trinando melodias diferentes, que se diluíam frequentemente num ritmo tão suave que era quase o silêncio verificado, na véspera, por Alberto, mas agora mais vivo, mais alvoroçante e integrado no esplendor da manhã.


De quando em quando, como se alternassem, subia pelas narinas, perturbando o olfacto, um cheiro forte de húmus em combustão, de troncos e folhagem apodrecendo no solo negro e húmido; ou então errava, por largos trechos, um aroma de ignorado jardim, perfume original e precioso como nunca o recolheram os frascos caprichosos da França.


Adivinhava-se a luta desesperada de caules e ramos, ali onde dificilmente se encontrava um palmo de chão que não alimentasse vida triunfante. A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo. O animal esfrangalhava-se no império vegetal e, para ter alguma voz na solidão reinante, forçoso se lhe tornava vestir pele de fera. A árvore solitária, que borda melancolicamente campos e regatos na Europa, perdia ali a sua graça e romântica sugestão e, surgindo em brenha inquietante, impunha-se como um inimigo. Dir-se-ia que a selva tinha, como os monstros fabulosos, mil olhos ameaçadores, que espiavam de todos os lados. Nada a assemelhava às últimas florestas do velho mundo, onde o espírito busca enlevo e o corpo frescura; assustava com o seu segredo, com o seu mistério flutuante e as suas eternas sombras, que davam às pernas nervoso anseio de fuga.


Vista uma légua parecia ter-se visto tudo. Só a água, presa nos lagos ou deslizando nos rios e igarapés, quebrava, com a abertura de clareiras, o emaranhado aparentemente uniforme. E, contudo, havia ali uma variedade vegetal assombrosa, com milhentos indivíduos diferentes a confundirem-se e a engalfinhar-se mutuamente, como numa raiva surda, eviterna, mas quase sempre com a mesma expressão. Daquela bárbara grandiosidade e da sua estranha beleza, uma só forte impressão ficava: a inicial, que nunca mais se esquecia e nunca mais também se voltava a sentir plenamente. Solo de constantes parturejamentos, obstinado na ânsia de criar, a sua cabeleira, contemplada por fora, sugeria vida liberta num mundo virgem, ainda não tocado pelos conceitos humanos; vista por dentro, oprimia e fazia anelar a morte. Só a luz obrigava o monstro a mudar de fisionomia, revelando as suas pesadas atitudes, mas persistindo sempre no seu ar enigmático.

pags. 105-107

(in "A Fauna. Vida e costumes dos animais selvagens. Volume VIII - América do Sul" a obra do Dr. Felix Rodriguez de la Fuente, que - conjuntamente com a magnífica série de televisão "O Homem e a Terra" - marcou a minha geração de biólogos, florestais, paisagistas, etc,.etc...)

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