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| "Daquela bárbara grandiosidade e da sua estranha beleza, uma só forte impressão ficava..." |
Desceu e, cem metros além, que mais não possuía a clareira,
já estavam na mata. A “estrada” não tinha a largura do varadouro percorrido na
véspera; trilho quase imperceptível, sobre folhas mortas e raízes, dobra aqui,
endireita ali, verga a cabeça acolá para evitar galhos e cipós, ia ligando, no
mistério da floresta, uma seringueira à outra.
Amanhecia e a luz fosca que despertara Firmino branqueava
agora a selva nas alturas, baixando rapidamente através das ramagens e
iluminado as salas aéreas que por vezes se escortinavam entre a multidão
vegetal.
A meio, porém dos fustes anciãos, onde já chegavam os
chapéus novos dos infantes, essa grande claridade solar, marchando para a
terra, encontrava a oposição da ramaria que ali se fechava espessamente em
mancha ainda negrusca.
Por toda a parte havia uma orquestra invisível, feita de
aves trinando melodias diferentes, que se diluíam frequentemente num ritmo tão
suave que era quase o silêncio verificado, na véspera, por Alberto, mas agora
mais vivo, mais alvoroçante e integrado no esplendor da manhã.
De quando em quando, como se alternassem, subia pelas
narinas, perturbando o olfacto, um cheiro forte de húmus em combustão, de
troncos e folhagem apodrecendo no solo negro e húmido; ou então errava, por
largos trechos, um aroma de ignorado jardim, perfume original e precioso como
nunca o recolheram os frascos caprichosos da França.
Adivinhava-se a luta desesperada de caules e ramos, ali onde
dificilmente se encontrava um palmo de chão que não alimentasse vida
triunfante. A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em
força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples
transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele
despotismo. O animal esfrangalhava-se no império vegetal e, para ter alguma voz
na solidão reinante, forçoso se lhe tornava vestir pele de fera. A árvore
solitária, que borda melancolicamente campos e regatos na Europa, perdia ali a
sua graça e romântica sugestão e, surgindo em brenha inquietante, impunha-se
como um inimigo. Dir-se-ia que a selva tinha, como os monstros fabulosos, mil
olhos ameaçadores, que espiavam de todos os lados. Nada a assemelhava às
últimas florestas do velho mundo, onde o espírito busca enlevo e o corpo
frescura; assustava com o seu segredo, com o seu mistério flutuante e as suas
eternas sombras, que davam às pernas nervoso anseio de fuga.
Vista uma légua parecia ter-se visto tudo. Só a água, presa
nos lagos ou deslizando nos rios e igarapés, quebrava, com a abertura de
clareiras, o emaranhado aparentemente uniforme. E, contudo, havia ali uma
variedade vegetal assombrosa, com milhentos indivíduos diferentes a
confundirem-se e a engalfinhar-se mutuamente, como numa raiva surda, eviterna,
mas quase sempre com a mesma expressão. Daquela bárbara grandiosidade e da sua
estranha beleza, uma só forte impressão ficava: a inicial, que nunca mais se
esquecia e nunca mais também se voltava a sentir plenamente. Solo de constantes
parturejamentos, obstinado na ânsia de criar, a sua cabeleira, contemplada por
fora, sugeria vida liberta num mundo virgem, ainda não tocado pelos conceitos
humanos; vista por dentro, oprimia e fazia anelar a morte. Só a luz obrigava o
monstro a mudar de fisionomia, revelando as suas pesadas atitudes, mas
persistindo sempre no seu ar enigmático.
pags. 105-107
(in "A Fauna. Vida e costumes dos animais selvagens. Volume VIII - América do Sul" a obra do Dr. Felix Rodriguez de la Fuente, que - conjuntamente com a magnífica série de televisão "O Homem e a Terra" - marcou a minha geração de biólogos, florestais, paisagistas, etc,.etc...)



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